Mentes Incógnitas: Revelações – Capítulo 5

Se a vida de Cristal fosse fotografada, e dela se montasse um álbum, talvez não houvessem fotos de opacos momentos. Predominaria uma infindável gama de matizes, ainda que algumas, em seu tom berrante, imprimissem à visão um certo desconforto. Sim, porque Cristal não é apenas suave e alegre. Em certos momentos ela dá suas pinceladas ásperas e traça linhas de tristeza. No entanto, em seu mundo se encontra, frequentemente, aqui e ali, a vastidão do azul. Ah, o azul!!!

É o azul da seda semitransparente e solta, que lhe cobre os ombros e os braços, permitindo que os dois primeiros botões, desabotoados, lhe deixem a descoberto o colo sereno. As calças jeans se ajustam às pernas bem modeladas da estatura mignon, e sua barra toca a ponta do sapato scarpin, vermelho. Na cabeça, um coque displicentemente arrumado, deixa alguns fios do cabelo ruivo brincarem com as sardas que lhe salpicam o rosto, e evidenciam o negro profundo do seu olhar transparente. Na boca, apenas um leve brilho e um sorriso travesso.

Sardas de uma se aproximam das sardas de outra, e Cristal brinca com Luz, esfregando seus nariz no dela:

– Está pronta, meu amor? Cadê suas irmãs?

Luz sacode os ombros e dá uma risada comedida:

– Mãe!… E precisa perguntar? Sol está dormindo. Ainda é madrugada para ela. – havia ironia na constatação, e as duas riram.
– E Blue… Você tem meia chance para acertar!
– Está malhando!… Errei, não é? Então está arrumando aquela bagunça que vocês fizeram na cozinha, ontem!… Acertei? – sorriu fingindo dúvida.

Luz ofereceu cumplicidade ao sorriso da mãe. Depois estancou-o, colocou a ponta do indicador no queixo e adotou uma expressão de reflexão:

– Hum… Uma parte você acertou! Ela está na cozinha, só que… aumentando a bagunça. Está tomando o sublime café da manhã, de sempre.

As duas aproximaram-se da porta, e apoiaram o corpo no batente, detendo-se, por alguns instantes, a observar a boca de Blue, lambuzada de chantilly.

Bonnie e Clyde, que pulavam ao redor da mesa, suplicando por uma mão estendida com alguma das iguarias que o olfato lhes contava, correram para cumprimentar Cristal e Luz, que e abaixaram para receber as lambidas frenéticas e acariciar-lhes o pelo. Só então Blue se deu conta da sua presença:

– Nem se atrevam a fazer piada! Estou com fome, e pronto! – e lambeu os dedos, dirigindo-se, em seguida, a outro pedaço de bolo.
– Claro que você está com fome! Olha só seu aspecto de desnutrida! – brincou Cristal.
– Mãe, eu não estou gorda! Minha pele só é bem recheada! – balbuciou com a boca cheia, espreguiçando o canto do olho em direção à mãe e à irmã que, como sempre, se divertiam com as suas justificativas.

Blue não era obesa. As pessoas se perguntavam onde conseguia armazenar tanta gordura e açúcar, porque na verdade, apesar de estar “gordinha”, seu corpo mantinha curvas que lhe davam uma sensualidade, ausente em tantas mulheres com peso e medidas dentro do padrão. Sabia escolher as roupas que melhor favoreciam o seu tipo físico e que retratavam perfeitamente na sua personalidade. O rosto arredondado ostentava uma pele viçosa, num tom entre o rosa suave e o moreno claro, onde se realçava o reluzente verde dos olhos e o lindo desenho dos lábios carnudos. Mas entre os Sete Pecados Capitais, a Gula, com certeza lhe pertencia! Comia o tempo todo, e se preocupava com a manutenção de seu universo, em guloseimas, guardando-as no quarto, na bolsa, no estúdio, mantendo-as sempre ao alcance de sua ininterrupta vontade.

Blue não era sedentária como Sol, mas também não era adepta a atividades físicas que exigissem muita movimentação. Aos 22 anos, com um incrível talento para a moda, desenhava coleções plus size e, de quebra, era também responsável pelos desenhos da griffe infantil de sua tia Safira. Sentia-se satisfeita em poder ganhar dinheiro com algo que lhe dava imenso prazer e que não lhe cobrava horários, mas negava-se a dar qualquer contribuição em casa, pois afinal, segundo ela, precisava sustentar as três coisas básicas em sua vida: a locomoção (com a manutenção do carro); a beleza (com roupas e produtos estéticos); e a gula (com fast food e chocolates). Não tinha namorado, porque se fechava para envolvimentos afetivos além das poucas pessoas mais próximas, que entendiam e respeitavam seu jeito rebelde de ser, e a quem não precisava dar explicações. Pela mesma razão, tinha pouquíssimos amigos e evitava qualquer tipo de comemoração ou encontros sociais, reservando-se apenas ao micro núcleo familiar e ao seu universo de criação.

Cristal aproximou-se, envolveu-a num abraço demorado, e inspirou a fragrância de seus cabelos:

– Hummmmm… Que delicia de perfume!
– É mais uma das criações de Gustavo! Ele não é um talento? O Joaquim me trouxe!
– Os perfumes que ele mandou para mim e suas irmãs também são deliciosos! Tem nome?
– Hermit! Não é a minha cara? – e levantou o ombro, jogando o cabelo para trás. – Hermit. Eremita.

Cristal concordou, e Luz aproximou-se, para sentir o aroma:

– Prefiro o meu!

Blue comentou, enquanto colocava geleia numa torrada:

– Claro! Gustavo é sagaz! O seu deve ser adocicado… como você.
– E é mesmo!

Gustavo era um rapaz criado pelo pai que trabalhava como motorista dos avós de Cristal. Ainda menino, perdera o pai num acidente de carro, e acabou recebendo os carinhos e cuidados desse casal amoroso. Pouco tempo depois, também criança, Joaquim se mudara para Lisboa, e os dois acabaram crescendo juntos, construindo um relacionamento que ia além das fronteiras da amizade. Muitas vezes, quando Joaquim viajava pela Europa, Gustavo o acompanhava. Como que por acaso, acabou conhecendo o universo das fragrâncias. Sua extrema sensibilidade a tudo o que possa despertar os sentidos fez-se um abrir de asas, que não pararam mais de desenhar voos em busca de combinações que agrupassem as notas ideais, na criação de perfumes, dos quais pretendia que, principalmente, fossem o tênue sussurro da personalidade de cada um.

– O tema da conversa me interessa. – sorriu Joaquim, sinuosamente, enquanto se aproximava para pegar uma xícara de café, depois de ter correspondido ao cumprimento esfuziante dos dois caninos.
– O perfume ou o criador? – indagou Blue, em tom provocador.
– Os dois, é claro!
– Minha mãe adorou o perfume que Gustavo me mandou. Aliás, estávamos comentando que todos são muito bons…
– Gustavo é um artista! Ele é bom em tudo o que faz!
– Em tudo mesmo, não é Joaquim?! – brincou Cristal.
– Bem… quase tudo, tia! Ele precisava ser um pouco mais corajoso! Mas eu entendo… entendo… mais ou menos… – prendeu o cigarro entre os lábios, acendeu-o, e ficou, por alguns segundos, fitando a fumaça que se desprendia. – Estou com muita raiva, tia! Ele me abandonou!
– Joaquim, ele não te abandonou! Você precisa entender que isso seria um choque muito grande para o vovô e para a vovó. – Cristal entendia a revolta do sobrinho, mas entendia também a situação de Gustavo.

Luz, apoiada na bancada, assistia ao debate com descontração. Para ela, tudo era tão normal, que não entendia por que as pessoas se escondiam, mas aprendera com sua mãe, que era preciso respeitar a opinião de cada um. Não se manifestava a não ser que seu parecer fosse requisitado. Blue virou o tronco e voltou-se para a mãe:

– Ah, mãe!… Então eles vão ter que esperar que a bisa e o biso morram?
– Não, Blue! Não é isso!
– Claro que é! – e dirigiu-se a Joaquim. – Olha, primo, para mim o Gustavo faz ótimos perfumes, mas é um covarde, e não merece o teu amor!
– Blue!!! – Cristal fitou-a com terna reprovação.
– É isso mesmo, mãe! As pessoas não são confiáveis nem merecedoras… até que se prove o contrário… e Gustavo só tem provado que não merece…
– Também não é assim, prima… – Joaquim passava uma das mãos pelo cabelo, e tentava disfarçar a emoção. – Ele é muito legal. É especial. Estamos dando um tempo.
– Mas esse tempo está te matando, não é? – Cristal podia sentir a angústia no peito de Joaquim, via com clareza o duelo que ele travava entre o medo e a esperança. – Deixa o Gustavo quietinho, aí num canto desse coração apaixonado. – e sorriu. – Tenho mil coisas para fazer, e quero muito a tua companhia! Vamos?

Joaquim pressionou a ponta do cigarro no cinzeiro:

– Não sei se sou uma boa companhia! – havia uma dose de charme em seu comentário, mas havia também um sintoma de carência.

Cristal tinha por ele o mesmo amor que tinha pelas filhas, e doía-lhe vê-lo sofrendo. Sabia que tanto Pérola quanto Safira não aceitariam a relação afetiva entre Joaquim e Gustavo, ou qualquer outro homem. A mãe ainda tentava disfarçar seu desconforto, embora deixasse escapar uma ou outra expressão que denotava sua real visão. A tia estava fortemente aprisionada aos dogmas da sua Igreja, que proclamava homem e mulher terem sido criados para se amarem e procriarem e que, portanto, qualquer outro tipo de relacionamento seria olhado por Deus como anormal e pecaminoso. Cristal acreditava, acima de tudo, no amor, e parecia-lhe absolutamente natural qualquer manifestação do mesmo, independente do sexo, da etnia ou da idade das pessoas envolvidas numa relação. Suas filhas, sem que algum discurso lhes fosse apresentado, haviam crescido encarando tudo com a mesma naturalidade. Por isso, Joaquim apenas confiava a elas seus mais profundos e íntimos segredos, e era na sua companhia que se permitia ser ele mesmo, sem quaisquer reservas.

– Você é sempre uma ótima companhia! – Luz pegou a bolsa e o puxou pela mão.
– Calma, calma calma! Onde vocês vão? – Blue engolira o suco rapidamente, para interceptá-los.
– Vamos comprar material de pintura, para sua irmã. Vou passar na casa de Safira, para deixar os petit fours. Vou ver se Pérola precisa de alguma coisa… Não me conformo! Safira nem foi capaz de ligar para ela…

Antes que Cristal continuasse, Blue interrompeu-a:

– Mãe… Para com isso! Você não pode mudar as pessoas! Que mania de querer corrigir todo mundo! Sabe que eu te amo, mas isso é meio arrogante!
– Não fala assim com a tia… – defendeu Joaquim, passando o braço pelo ombro de Cristal e aconchegando-a.
– Estou errada? Minha mãe é meio rígida com as irmãs! Safira está certa! Deixa Pérola curtindo seu sofrimento Shakespeariano. – e o tom sarcástico se fazia presente, na expressão séria de Blue.
– Está bem! Não vou criticar! – aceitou Cristal, um tanto desconfortável. – Então vamos!
– Como assim “então vamos”? E o meu pedido para o jantar?

Houve um coro de risadas, pois Blue, desde que acordara, ainda não parara de comer.

– E o que você quer para o jantar, meu amor? – Cristal fazia uma reverência serviçal, e adotava um tom teatral.
– Mãe… Faz filet Wellington, por favor!!!
– Ah, Blue!… Tá bom! Então preciso ir logo, porque ainda tenho que passar no mercado, e o filet demora a preparar! Vê se Sol não dorme o dia inteiro!


Rodaram por algumas ruas sem que o trânsito, por vezes congestionado, os incomodasse. Pararam primeiro na Casa do Artista, e divertiam-se naquele universo que os três viam repleto de magia.

Para Joaquim, era a observação de cores e materiais construindo a expectativa daquilo que sua prima criaria. Apesar de crítico conciso, inevitavelmente amava os resultados. Para Luz, era o mergulhar num mundo de sensações pulsantes, passear, nadar voar sobre as telas, abrindo o coração aos cantos mais misteriosos da imaginação. Mas sua autocrítica severa sempre a deixava insatisfeita com os resultados, e os elogios que lhe teciam eram recebidos com uma certa resistência. Em Cristal havia sim a ansiosa expectativa da obra finalizada, havia o prazer da alegria de sua filha, mas havia também uma secreta viagem ao álbum das lembranças. Cristal costumava dar cor e textura aos sentimentos associando flocos de algodão cor-de-rosa ao abraço de sua mãe, e a frescura de folhas verdes aos momentos com seu pai. As brincadeiras de criança com suas irmãs eram saltitantes bolhas amarelas, a saudade das tardes na varanda da casa antiga, com seus avós, era como uma ventania púrpura que se remexia em seu coração. E as filhas… Ahh, elas eram como um pote transparente, repleto de balas, em que mil cores embrulham centenas de sabores, ou então os tons pastéis de bexigas leves, leves… pintadas no céu de uma manhã de verão. Joaquim… Joaquim era a transparência quase metálica de uma bala mentolada.


Seguiram depois para o apartamento de Safira. Guilherme veio abrir-lhes a porta com o mesmo sorriso bem humorado de sempre, mas ao beijar-lhe o rosto Safira percebeu a respiração presa numa angústia que lhe comprimia o peito. Sentiu em seu cunhado uma tristeza cambaleante na corda bamba da dúvida. Enquanto Luz e Joaquim foram direto procurar os primos, e Guilherme colocava o pote de vidro em cima da mesa, pousou suavemente a mão em seu ombro, e fitou-o nos olhos:

– O que está acontecendo? Quer conversar?

Ele desviou o olhar ao chão e ajeitou a ponta virada do tapete:

– Tá tudo ótimo, Cristal! Você sabe que a esta hora sua irmã não tá em casa, não sabe?
– E a que horas ela está? – começou num tom irônico de crítica, mas lembrou-se do comentário de Blue, e se conteve. – Eu sei, sim. Mas ainda tenho outras coisas para … Guilherme… eu sinto que você não está bem. Se não quiser falar… tudo bem!
– Ah Cristal, você me assusta com esse jeito de ler nossas emoções! – Sorriu-lhe doce e tristemente. – Mas não quero falar sobre isso. É um assunto entre Safira e eu. Ontem recebi uma carta anônima, mas ela não quis falar sobre isso. Tá muito brava comigo.
– Coisas de Safira! Não dê importância a cartas anônimas! Tudo vai se acertar. Confie em Safira! Você sabe que minha irmã te ama!
– Sim, eu sei! – não era a falta de amor, ms a ausência da verdade, que o preocupava. – Vamos na cozinha! Faço um café pra nós.

Puseram uma pedra no caminho e se perderam durante um bom tempo em histórias dos filhos, a quem continuavam chamando de crianças.

Luz entretera-se jogando videogame com Paulo, seu primo de 13 anos, e Joaquim, depois de parar por alguns minutos na porta do quarto de Bernardo, observando sua leitura compenetrada, abraçara-o com um carinho contido, com uma saudade presa na garganta, e sentara-se na beira da cama:

– E aí, como vai a fisioterapia?

Bernardo, que já fechara o livro e o jogara na cama, desliza as mãos pelas pernas, como se as massageasse, e balança os ombros:

– A fisio vai indo, mas tá mais focada na musculatura dos braços e do tronco. Não tenho esperanças de voltar a andar. – disse, parecendo conformado.
– Que é isso, primo!!! Você é teimoso! Vai se recuperar!
– Já tou recuperado! Este é o meu limite! – e bateu com as mãos nas rodas da cadeira – Tô vivo, né? É o que importa!
– Estava acompanhando um Consul, na França, quando recebi a notícia do seu acidente. Fiquei chocado. Mais tarde te chamei pelo Face, mas você não me respondeu…
– Andei afastado do Face, por uns tempos, mergulhei na minha tese…
– … fui sabendo de você pela tia Cristal…
– … é uma forma de esquecer a Patrícia e ao mesmo tempo homenageá-la…
– … eu sei que você não me aceita…
– O que você disse? Eu não te aceito? – Bernardo havia levado seus pensamentos para um tempo e um lugar distantes dali.
– Joaquim, eu gosto de você. Você é meu primo. Mas não posso ir contra o meu Deus!
– O seu Deus? Que Deus é esse que condena o amor, que aprisiona os homens a conceitos fechados e castradores?
– Não venha querer me falar de tempos modernos! – sua voz tomava um tom mais áspero e exaltado. Virou a cadeira, como se estivesse procurando alguma coisa pelo quarto.

Joaquim não queria irritar o primo, mas não conseguiu se conter:

– Tempos modernos? Você, formado em História, sabe muito bem que na Grécia Antiga, assim como em Roma também, o relacionamento afetivo entre homens era frequente, e muito mais por afinidades de convivência, do que pelo sexo em si.

Bernardo olhou-o, entre surpreso e desconfortável:

– Ah, ah, ah! Tá me parecendo discurso da tia Cristal!
– Até que não! Ela acha que amor é amor, e não importa como nem entre quem! Mas tudo bem, vamos mudar de assunto! Você tava falando da Patrícia…
– É… a Patricia…
– Como ela está?
– Deve estar bem. Faz tempo que não nos vemos.
– Como assim??? Vocês não estão mais juntos???

Bernardo, ao contrário da mãe, era muito emotivo, e falou com a voz embargada:

– Não, Joaquim. A decisão foi minha. Sempre viajava com Patricia, quando ela ia fazer os ensaios fotográficos, e agora não me vejo mais em condições de acompanhá-la…
– Como não??? Sempre se dá um jeito!
– Eu sei que minha limitação de locomoção acabaria atrapalhando ela…
– Ah, vá, Bernardo! Autopiedade não!
– Não, Joaquim! Não é autopiedade…
– Somos todos iguais…
– Iguais? Você acredita nisso?

Cristal abrira lentamente a porta do quarto, depois de ter ouvido as últimas frases da conversa, num meio sorriso, não se conteve:

– A condição de igualdade, deveria ser inerente a todo o ser humano, enquanto indivíduo, independente de cor, posição social, crença, gênero…

Joaquim olhou-a interessado, e perguntou:

-Deveria? Não é?
– Essa igualdade se desfaz quando o homem se contextualiza num grupo, um povo, uma nação. A História lhe dá contornos, cores e papéis específicos.
– Então somos diferentes?
– Somos diferentes, sim! O erro está em vincular essas diferenças a padrões de superioridade e inferioridade, a conceitos que estabelecem mais ou menos direitos, que cerceiam a liberdade de sermos o que somos.
– Entra, tia! Senta aqui! – convidou Bernardo, afastando a cabeça e apontando-lhe a cama.
– Fica para outra vez, meu querido! Agora precisamos ir! Luz já está na porta, esperando.


Joaquim contorceu-se no banco do carro, quando o viu virar a esquina, e entrar na rua em que sua mãe morava:

– Tia acho que não vou subir…
– Nem pense, Joaquim! Nós não vamos demorar. Nem precisa conversar muito com a sua mãe. Ao menos pareça um pouco sensibilizado…
– Mas eu…
– Sei que é difícil, mas tente.

Tiveram que insistir um pouco na campainha, até que a expressão sonolenta de Samuel aparecesse na porta entreaberta:

– Cristal??? Caramba! Esqueci de te ligar!!! Pérola não tá… mas… entrem! – abriu totalmente a porta, e apressou-se a ajeitar as almofadas do sofá. – Tava dando uma cochilada. Quando Pérola está, quase não consigo dormir.
– Pensei que ela estaria, entupida de remédios para dormir. Aonde ela foi? – enquanto falava, foi arrumando algumas coisas espalhadas pelo caminho – Vocês estão sem faxineira?

Samuel envolveu as palavras num suspiro profundo:

– Sabe como é, né! Desconfianças, implicâncias, atritos… Ninguém para aqui por muito tempo. – levou a mão à testa. – Que bom que você veio! Sua irmã pediu que esvaziasse totalmente o quarto de Ágatha.
– Totalmente, como?
– Roupas, livros, brinquedos… Tudo!
– Não dá para fazer tudo isso, hoje. Preciso de caixas… Aonde ela foi?
– Tinha uma sessão com o terapeuta.

Luz e Joaquim, que até então permaneciam inertes a um canto da sala, entreolharam-se como se nada fosse surpresa, e encaminharam-se para o quarto de Ágatha. Samuel pegou algumas sacolas, entregou-as a Cristal, e recostou-se no sofá, com o controle da televisão na mão.


O quarto respirava a essência de uma menina que vivia reclusa num mundo construido em sua imaginação. Aqui e ali, folhas soltas em todos os lugares, mostravam a confusa polaridade de traços suaves e doces, e rabiscos rasgados, manchados. Cristal sentiu o sopro morno de uma profunda solidão, e enxugou as lágrimas que lhe inundavam os olhos. A filha e o sobrinho olharam-na com tristeza, e começaram a abrir as gavetas que rapidamente foram esvaziadas.

– Mãe, olha o que eu encontrei! – Luz estendia-lhe a mão com um pequeno caderno, em cuja capa estava desenhada a palavra Diário.

Pegou-o com uma certa ansiedade e, ao mesmo tempo, hesitando em folheá-lo:

– Talvez devêssemos jogar fora, ou guardá-lo fechado.
– Não, tia!!! – Joaquim tomou o caderno das mãos de Cristal. – Precisamos ler! É importante!
– Mas deveríamos respeitar os segredos da sua irmã.
– É por ela que devemos ler… – com os dedos fazia as folhas correrem. – Olha! Estão faltando folhas! Foram arrancadas!

Nesse momento Luz remexia o pequeno cesto de lixo:

– Tem umas folhas amassadas, aqui… – desamassou-as.
– parece que são dai…
– Tudo bem! Vamos guardá-las, e depois decidimos o que fazer. – Cristal estava confusa .- Agora vamos! Preciso tomar um copo de água…

Samuel olhou por cima do ombro e os viu carregando as sacolas, mas não se moveu. Joaquim e Luz dirigiram-se à porta e Cristal foi na direção da cozinha:

– E esta foto, porque está virada para baixo? – perguntou ao passar pelo aparador.

Com o olhar fixo na TV, e transitando de canal em canal, ele respondeu:

– Pode levar também!

Cristal estava incomodada a aparente indiferença. Percebia em Samuel uma saudade e tristeza que ele fazia questão de ocultar, não para fugir das emoções, mas para nãos expô-las. Também não porque fosse introvertido a esse ponto, mas talvez porque, penava ela, houvesse receio de demonstrá-las para Pérola. Seu coração parecia oco, inclusive na ausência do amor e dedicação que parecia demonstrar por sua irmã. Tinha talento para vendas, e era o melhor funcionário da concessionária em que trabalhava mas, coincidência ou não, nos dois últimos meses sempre o encontrava em casa.

– Você passou a tomar iogurte? – gritou da cozinha, ao deparar com uma embalagem de iogurte liquido.
– Não! Deve ser de Pérola!
– Então agora ela gosta do sabor de coco? Porque antes detestava. – comentou com ironia, escondendo o estranhamento.
– Deve ser! – respondeu ele, sem perturbação.


Passaram pelo escritório de uma renomada editora, instalada em um dos modernos prédios da Avenida Paulista e, contentes com o resultado da entrevista para a função de tradutor, passaram também no Supermercado, para viabilizar o pedido de Blue. Compras feitas, colocaram-se a caminho do último compromisso do dia.

Cristal estacionou o carro em frente a um Clínica de padrão médio:

– Bem, aqui estamos! É melhor eu entrar sozinha. Outro dia nós voltamos. Tudo bem?

Joaquim e Luz concordaram, com um leve aceno de cabeça, embora a vontade, em seu peito, se mostrasse relutante. Amavam aquela pessoa, e apenas saber como ela estava não lhes parecia suficiente. Queriam abraçá-la, olhá-la nos olhos e, quem sabe, na sua pueril curiosidade, fazer-lhe perguntas sobre dúvidas que borbulhavam em suas mentes.

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Mentes Incógnitas: Revelações – Capítulo 4

Enquanto deslizava a prancha pelos longos fios do cabelo loiro, examinava, no espelho, com descontentamento, a aparência cansada de suas feições. Comprimia o maxilar, para controlar a inquietude. Havia um turbilhão de emoções atropelando os sentidos e transferindo aos gestos uma tensão difícil de disfarçar. Conseguiu domesticar o tremor das mãos, para que o delineador fosse passado com perfeição e escolheu, meticulosamente, entre as roupas das sacolas, algo que pudesse reavivar seu ânimo e justificar elogios nos olhares alheios.

Apesar do conturbado mal-estar que lhe corroía a alma, aprovou a imagem refletida. Estava simplesmente deslumbrante! Por cima da meia-calça preta que lhe cobria as pernas bem torneadas colocara uma ankle boot de camurça preta. Um palmo acima do joelho, a saia preta, envelope, desenhava-lhe sutilmente os quadris. Ao suéter de cashemira, da mesma cor, sobrepunha-se a jaqueta de couro, aberta, e sobre ela, entrelaçando-se levemente ao pescoço, jogara displicentemente um cachecol de cashemira, cinza. Guardou o celular e o tablet na bolsa preta com tachas metálicas e pendurou-a no ombro.

Estancou o movimento da mão direita que envolvia a maçaneta, e permaneceu imóvel em frente à porta do quarto de Ágatha. Samuel aproximou-se, elogiando-lhe primeiro a beleza, com os olhos e com palavras:

– Como você tá linda!!!

Pérola virou-se, em sobressalto:

– Ah, você tá aí?!
– Não conhecia essa roupa! É nova?
– Encontrei uma amiga, no Shopping, e ela ficou tão sensibilizada com a minha tristeza, que quis me dar um presente, pra me animar. – respondeu com displicência, enquanto virava as costas para a porta, e se afastava dela, ao encontro do marido:
– Liga pra Cristal e pede pra ela esvaziar este quarto! Pode tirar tudo, cortinas, tapetes, livros… tudo! Diz pra ela dar pra alguma Instituição!
– Imagino a sua dor, vida!… – e inclinou o tronco para beijar-lhe o pescoço. – Hummm… Como tá cheirosa!!!

Pérola sorriu, esfregando provocadoramente o seu corpo no dele, cedendo à força do braço de Samuel, que lhe cingia a cintura:

– Você pode me levar ao consultório?
– Consultório? Mas você não ia repassar seus pacientes, ao menos por um mês? – fitou-a nos olhos, surpreso.

Pérola tornara-se uma psicóloga de prestígio. Maior do que a capacidade em desvendar a mente humana, avançando pelos cantos onde sentimentos eram negados e adormecidos, era a sua destreza e sutilidade em estabelecer parâmetros de conduta, e conduzir as mães de seus “pequeninos” a tomarem posturas que levavam a resultados satisfatórios. Apesar de amar a profissão, não tinha muita simpatia pela rigidez de horários, e fazia questão de seu descanso prolongado, assim como de suas horas embaladas pela música. Havia decidido atender não mais que três consultas diárias, três vezes por semana. A bipolaridade parecia se manifestar apenas com relação à família e poucos amigos reais, e se mostrava curiosamente controlada com relação aos contatos profissionais. A renda de Samuel, que era vendedor numa concessionária de carros importados, supria a maioria das despesas e, por isso, Pérola não tinha que se preocupar com o lado financeiro (embora nos dois últimos meses ele trouxesse pouco dinheiro para casa). Controlou uma certa irritação e, desviando o olhar, respondeu:

– Eu não repassei! Adiei! Não tem nenhum caso que não possa esperar um pouco! – puxou o celular da bolsa, para consultar o horário, ignorou a mensagem pendente, e guardou-o de novo. – Tenho hora com o meu analista! Você me leva?

Não gostava de dirigir. Achava cansativo enfrentar o caótico trânsito de São Paulo. Preferia deixar essa tarefa para o marido ou algum motorista de táxi, enquanto recorria aos fones de ouvido para mergulhar no seu mundo melódico, entre o gospel, pop dos anos 80, pagode e sertanejo.

Samuel pegou as chaves do carro sobre o aparador, olhou de relance a foto sorridente de Ágatha, e puxou-a pela mão:

– Precisa mesmo ir hoje?… Tá, eu levo!
– Ah, também quero que tire todas as fotos de Ágatha! Não suporto a dor de olhar para elas! – limpou a lágrima no canto do olho, deitou o porta-retrato, com a face virada para baixo, e corrigiu o borrado da maquiagem, ajeitando-se no espelho sobre o aparador.

Não fosse pela música que se esquivava pelos fones de ouvido, pelo barulho dos motores, e pelas buzinas dos mais impacientes, o trajeto teria transcorrido em profundo silêncio. Samuel, por uma ou duas vezes esboçara a intenção de acariciar a perna da mulher, que se expunha, num cruzar sexy, sob a curta saia preta, mas ela a desviara, distraída ou intencionalmente.

Mal tinha acabado de puxar o freio de mão, ao estacionar em frente ao prédio suntuoso, e Pérola já abrira a porta, colocando o pé na calçada, e afastando-se a passos apressados, sem sequer olhar para trás. Ele encolheu os ombros, mostrando um certo descontentamento acompanhado de resignação por entender que tanto sofrimento justificava qualquer comportamento.


Pérola ajeitou o cabelo e empurrou a porta do consultório. Ao aceno da secretária de que o Dr. Marcelo já a esperava, sorriu largamente e dirigiu-se à segunda porta, retomando um semblante que traduzia tristeza. Marcelo estendeu-lhe a mão e ela retribuiu com um aperto morno que se aliava à fraqueza do seu estado emocional. Sentou-se numa poltrona à sua frente, desenrolou o cachecol, acomodando-o sobre a bolsa, em cima da mesa, e cruzou as pernas, lentamente, sem desviar o olhar do terapeuta:

– Eu lhe expliquei ontem porque precisava desta sessão, com urgência…

Ele deslocou a atenção dos contornos das meias de seda, e fitou-a:

– Você me disse que sua filha morreu. Lamento muito e entendo sua fragilidade. Por sorte, minha secretária encontrou um encaixe. Mas conte-me… Como está se sentindo?
– Que pergunta! Estou arrasada! Como estaria? – descruzou as pernas, e cruzou-as de novo. – Você me conhece! É meu analista há mais de dois anos!
– Exatamente por conhecer você um pouco, admito que as possibilidades podem ser múltiplas, e com combinações variáveis.
– Como assim? Não tou entendendo! – tentou disfarçar o incômodo, brincando com o zíper da jaqueta, deslizando-o, num vai e volta, pela trilha de dentes metálicos.

Marcelo recostou-se na confortável cadeira de executivo e esboçou um meio sorriso, enquanto a fitava fixamente:

– Ora, Pérola, você se considera uma pessoa previsível?
– Claro que sou!… Pelo menos para as pessoas que me conhecem um pouco… Droga!!! – prendera a unha no zíper e observava o esmalte descascado.
– Uma coisa eu percebo: você está extremamente inquieta. Quer falar-me sobre o que sente?
– Diga você, já que me conhece tão bem! – levou o tronco à frente, apoiou um dos cotovelos no joelho, e sustentou o queixo na mão fechada, em tom desafiador.
– Diga você, e depois analisaremos o quanto está sendo sincera com você mesma… ou comigo.
– Ah, ah… – tentava dar à irritação um tom irônico. – E eu não sou sempre sincera?
– Com você, muitas vezes não. Comigo…
– Tá dizendo que eu sou falsa?
– Eu não falei em falsidade. Além disso já havíamos chegado à conclusão de que você muitas vezes luta contra certos sentimentos, e os nega.
– Eu não me lembro de ter chegado a essa conclusão!
– Não lembrar faz parte da fuga.
– Eu não fujo de nada! Eu enfrento as coisas! Você acha que a minha vida é fácil?
– E você, como você acha que é a sua vida?
– Sei que Deus olha por mim… – comprimiu os maxilares e concentrou-se num ponto da imensa janela, por onde entrava um resplandecente sol matinal .- … e ainda vou ter a vida que mereço… mas tem momentos que… tem momentos que acho que minha vida não vale nada… tem momentos que… quero … só quero morrer.
– É isso mesmo que você quer? Agora, neste momento, é isso que você quer?
– Neste momento? Não! Sei lá! Nem sei mais o que quero!
– resvalou o olhar por um porta-retrato de duas crianças montando um quebra-cabeças. – Talvez eu queira uma família… talvez eu queira ser amada e compreendida… Seus filhos são lindos!
– Sim, são dois moleques muito legais! – rodou a cadeira e inclinou a cabeça, para rever a foto, e esboçou um sorriso, voltando logo em seguida a uma expressão mais compenetrada. – Mas você tem família. Não tem? – a primeira frase não era exatamente uma afirmativa, assim como a segunda também não era totalmente uma pergunta.
– Família? Ontem enterrei minha filha! – estendeu o braço para receber o lenço de papel que Marcelo lhe oferecia, e enxugou a lágrima que lhe escorria pelo canto do olho.
– Quer falar sobre como isso aconteceu?
– Não, não quero! A imagem dela… no chão do quarto… pálida e imóvel… me … me dói muito. – e voltou a enxugar as lágrimas.
– Mas então ela morreu de repente? Ou já estava doente?

Algumas versões haviam chegado ao terapeuta, pelas redes sociais, já que Pérola era muito popular entre elas, e tinha o hábito de escancarar situações e episódios de sua vida. Embora tivesse construido uma possível conclusão, através do histórico alinhavado no decorrer de tantas sessões, queria saber o quanto e de que forma os detalhes se desenhavam na mente dela. Por uma questão de ética profissional, via-se obrigado a esconder desta mulher que transpirava sedução, a latejante atração física que sentia por ela, e muitas vezes acabava usando uma exagerada rigidez, para contrabalançar a forma como se percebia envolvido. Pérola não era para ele apenas uma mulher de formas e gestos atraentes. Mais do que isso, ela era enlouquecedoramente misteriosa. Sua mente brilhante elaborava discursos e argumentos que, se não impossibilitavam uma réplica, deixavam o oponente confuso e vulnerável. E como se não bastasse a incrível capacidade em usar as palavras, havia ainda o dom de olhar e sorrir de uma forma que sabia enternecer ou desafiar, conforme a situação exigisse.

Fez-se silêncio, enquanto ele esperava uma resposta, e ela se negava a responder:

– Ágatha tinha intolerância a lactose… e… e… Eu já disse que não quero falar sobre isso!
– Então vamos falar do seu outro filho, Joaquim! Ele está aqui no Brasil, não está?
– Tá! Parece que vai ficar um bom tempo por aqui.
– Então vai poder curtir bastante o Joaquim!
– Não, não vou! – levantou-se, despiu lentamente a jaqueta, e andou no mesmo ritmo, até encostar a testa na janela. – Entende por que não tenho família?
– Não, não entendo. – começou a segui-la com os olhos, e ia rodar a cadeira quando ela saía do seu campo de visão, mas estancou o movimento, preferiu ficar de costas e apenas ouvi-la. – Quer me explicar?

Ela percebeu que ele não finalizara o movimento, e voltou ao centro da sala, apontando para o porta-retrato:

– A vida é um quebra-cabeças, não é?
– É assim que você pensa? E se for? As pessoas gostam de quebra-cabeças pelo prazer de vê-lo terminado, ou pelo desafio de montá-lo?
– Às vezes me canso de montar quebra-cabeças. As coisas e as pessoas são complicadas. Prefiro aqueles cubinhos que se encaixam uns nos outros. – e pela primeira vez, naquela manhã, soltou uma risada espontânea.
– Esses são para crianças bem pequenas… – oferecia-lhe cumplicidade na risada. – Você se sente uma criança?
– Às vezes queria ser uma. Sem responsabilidades e com um jeito ingênuo de ver o mundo, mas meu tempo de criança não me traz boas referências.
– Não? Porquê?
– Ah, Marcelo!!! Eu já te falei sobre isso várias vezes!
– Sim. Mas hoje talvez se sinta diferente, talvez tenha alguma coisa a acrescentar.
– Nada a acrescentar.
– Então vamos voltar ao Joaquim. Por que diz que não o vai curtir bastante?
– Ele me adora e é muito amoroso comigo, – não o sentia assim, mas também não o confessava aos outros. – mas não se dá com Samuel… por isso… vai ficar na casa da Cristal.
– Mas isso não impede que vocês se vejam e passem bons momentos juntos. Impede?
– Ah… eu também não tou numa boa fase. Não sou uma companhia agradável e… tem o Samuel.
– O que tem o Samuel?
– Ele controla muito a minha vida e morre de ciúmes do Joaquim. Não tou a fim de discussão.
– Por que acha que ele tem ciúmes do Joaquim?
– Ora, porque é homem que nem ele, e é meu filhote amado!
– Mas o Samuel já te disse isso? Já demonstrou de uma forma explícita?
– Não! Ele disfarça. Mas eu percebo muito bem que o humor dele fica alterado quando se fala em Joaquim.
– E você? Tem ciúmes do Samuel? – Marcelo sabia que sim. Ela já o havia confessado.

Pérola voltou a sentar-se. Ergueu os braços deslizando os dedos pelos fios dourados do cabelo, e jogou-o para trás:

– Já tive! Muito! Mas hoje não tenho mais!
– Não? Porquê?
– Sei lá! Talvez porque quando me olho no espelho, hoje eu tenho consciência da mulher bonita que sou, e acredito que ele não me trocaria por outra. – então ela fitou Marcelo com profundidade, deixando aflorar toda a confiança que tinha em seus atributos de sedução.
– Então você acredita que os ciúmes estejam diretamente ligados à autoconfiança?
– Com certeza! Não é?

Marcelo encolheu os ombros e sorriu:

– Hoje você acredita na fidelidade de Samuel… É isso? Pérola concordou, com um leve aceno de cabeça.
– Mas antes você não acreditava… O que mudou?
– Já disse! Hoje eu me vejo bonita…
– Então a fidelidade está condicionada à beleza? – levantou-se. Despejou um pouco de água num copo, ofereceu-o a Pérola, e voltou-se para encher outro.

Pérola mantinha a mão imóvel, segurando o copo. Já comentara com Luana o quanto esse homem lhe despertava uma certa inquietação, e tinha certeza de que havia reciprocidade. Percorreu o olhar pelas linhas que lhe desenhavam os ombros, e desceu, quase em deleite, pelos braços esguios e firmes. Não podia ver suas mãos (as quais, secretamente, se controlavam ao despejar água no copo), mas não precisava. Elas deslizavam nítidas em sua mente, másculas, suaves, assim como pulsava o desejo de as sentir deslizando em seu corpo. Chacoalhou a cabeça, como se espantasse pensamentos proibidos, e simplesmente sorriu, quando ele se virou:

– Desculpe! Perguntou se…

Marcelo ignorou o sorriso e olhou-a com seriedade:

– Você considera Samuel um homem bonito?
– Já achei mais. Hoje nem tanto…
– Você é fiel?

Tomou a água, sofregamente. Pousou o copo, lentamente, sobre a mesa ao lado, e com a mesma lentidão descruzou e cruzou as pernas:

– Preciso responder?

Ele olhou-a demonstrando que sim, esperava uma resposta.

– Que absurdo! É claro que sou!
– E por que é fiel?

Ao toque do celular, Pérola estendeu o braço e retirou-o da bolsa. Deixava escapar um certo desconforto ao ler a mensagem. Digitou rapidamente alguma coisa, e enquanto, de pé, vestia a jaqueta, num tom suspirado explicou:

– E não disse? Olha aí meu marido controlando meus passos!
– É por isso que é fiel? Porque ele te controla?
– Ah, ah!… Claro que não!
– Então porquê?
– Ora, porque sou fiel aos mandamentos de Deus!
– Só por isso?
– Se… só por isso? Não! Porque… Ora, porque amo meu marido!

Estendeu-lhe a mão, e virou-se sinuosamente em direção à porta:

– Eu ligo para marcar a próxima sessão.
– Está bom! Eu aguardo!

Assim que a porta do elevador se fecha, Pérola liga para Samuel para, carinhosa e sedutoramente, lhe dizer do seu imenso amor, e o avisa de que a sessão havia se prolongado, por isso, se atrasaria um pouco.

Os saltos-altos tocam, numa coreografia harmoniosa, degrau por degrau da ampla escadaria da fachada do prédio. Os cabelos loiros se movem ao sabor da suave brisa e sopram a fragrância adocicada do perfume feminino. Pérola sorri e acena para o carro que acaba de estacionar.


Em seu consultório, Marcelo a observa da janela. Sua respiração fica entalada entre a contemplação e a curiosidade. Ajeita o nó da gravata com uma mão, enquanto com a outra pressiona a tecla do interfone, e sorri ao perceber o cachecol de cashemira cinza, sobre a mesa.

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Mentes Incógnitas: Revelações – Capítulo 3

Passou por Guilherme, que acabara de lhe abrir a porta e ainda se apoiava na maçaneta. Beijou-lhe o rosto sem olhá-lo, e deixou cair o esguio corpo, exausto, sobre o sofá. Com a ajuda da ponta do pé oposto tirou um sapato, e depois outro, jogando-os displicentemente no tapete. Olhou em volta como se procurasse algo, enquanto corria os dedos pelos fios negros do cabelo, e esboçou um sorriso quando o mel dos seus olhos se chocaram com os de Bernardo, da mesma cor, e convidou-o a se aproximar deslizando a mão pela almofada:

– Oi meu bem! Vem aqui!

Bernardo desenhou um sorriso largo e escancarou a perfeição de uma fileira de dentes brancos. O queixo quadrado no rosto oval concebia-lhe uma beleza peculiar, e a seriedade que tinha na voz servia de contraponto ao olhar endiabrado, às pequenas covas logo abaixo das maçãs do rosto, e aos cachos do cabelo castanho que lhe caiam, desarrumados, sobre a testa ampla. As mãos apoiadas sobre as rodas deram movimento à cadeira. Esse movimento constante, assim como o fato de, em muitas situações, precisar da força do tronco para sustentar o resto do corpo, haviam feito com que desenvolvesse ombros largos e musculosos. Desviou-se da mesa de centro, aproximou-se do sofá, e inclinou-se para beijar o rosto da mãe.

Com se antevisse o que viria, logo em seguida deslizou as rodas, conduzindo a cadeira à outra ponta do sofá. Safira levantou os pés e colocou-os no colo do filho:

– Tou tão cansada!… Faz aquela massagem que eu adoro, e que só você sabe fazer. – o tom da voz acompanhava o mel do olhar, e assim, qualquer pedido se tornava irrecusável.

Bernardo deslizava, firme e suavemente, os dedos indicadores pela sola dos pés de Safira, contemplando-a com amor e admiração. Admirava-lhe a beleza delicada, o sorriso aberto, o brilho dos olhos, o contorno suave do pescoço, deixado a descoberto pelo corte do cabelo que permitia observar a nuca. Mas admirava, talvez mais, a determinação com que sua mãe se dedicava aos estudos e à profissão. Era uma mulher incansável. E embora muitos a criticassem por preterir a convivência com família em prol do seu sucesso profissional, ele a entendia e cooperava no que fosse necessário.

– Você tá aí, meu bem? – só então Safira se dera conta da silhueta de Guilherme, encostado à parede, bem próximo à porta de entrada, como se mal tivesse saído do lugar, desde que ela chegara.
– O que aconteceu? Tá tudo bem?

– Tá sim! Só estava observando vocês dois! – as mãos permaneciam, inertes, adormecidas nos bolsos da calça. Os lábios sorriam, mas no olhar havia uma brisa de tristeza.

Safira não percebeu. Talvez não tenha sequer visto o sorriso. Desceu a atenção aos dedos dos pés, enquanto os mexia, como se os espreguiçasse:

– Meu bem, tem café quente?
– Acho que ainda tem um pouco do que fiz pro lanche dos meninos. – e encaminhou-se à cozinha, parando no meio da sala, para ajeitar, emparelhados, os sapatos jogados no tapete. – Ah, a Cristal mandou umas bolachinhas de canela. Você quer?
– Hummm… Que delicia! Traz o pote! – estendeu o braço para pegar o telefone na mesa de apoio. – Preciso ligar. Ela não gostou muito de eu ter saído antes dos outros. Além disso, meus petit fours de queijo acabaram. – e sorriu como se debochasse de si mesma pela segunda intenção do telefonema.
– Você não ficou até o final, mãe? E a tia Pérola, como estava?
– Sofrendo, abatida… como sempre! E não, não fiquei. Saí antes. Tinha uma reunião intransferível, e você sabe que a sua tia Cristal coloca a família acima de qualquer coisa. Às vezes me irrita essa arrogância!
– Arrogante, a tia Cristal? – Bernardo soltou os pés da mãe e desviou o olhar deles. Não surpreso com a observação, pois já estava acostumado a esta opinião, mas para persistir no seu desacordo.
– Arrogante, sim! Só ela sabe organizar o tempo. Só ela tem tempo pra tudo e pra todos. Tou cansada de ser cobrada…
– Mãe, mas ela te cobra? – apesar de reconhecer que a tia não aprovava a forma como sua mãe se dedicava à profissão e se tornava ausente em casa, Bernardo não conseguia imaginá-la cobrando-a, pois sua mãe não abria espaço para isso.
– Cobrar exatamente, não! Mas percebo seu olhar de desaprovação. A vida é minha! Praticamente sou eu quem sustenta esta casa! – percebeu Guilherme aproximando-se. – Eu sei que o seu pai se esforça, e me ajuda muito aqui em casa, mas o que ele ganha não basta.

Ainda havia tristeza no olhar de Guilherme, e existia uma certa submissão na sua postura diante da mulher que parecia fazer questão de lembrá-lo o quanto o via inferior a ela. Colocou sobre a mesinha a xícara de café e o pote de bolachas, e sentou-se na poltrona ao lado, enquanto Safira digitava um número de telefone:

– Joaquim? Você não sai da casa da Cristal? – Joaquim riu, como resposta, mas ela insistiu – Acha engraçado? A mim você não visita, né?

Do outro lado da linha, o rapaz terminava de ajeitar os cabelos castanhos, molhados, e encaixava o fone entre o queixo e o ombro:

– Ah tia… você nunca está em casa…

Safira disfarçou a irritação por aquilo que lhe parecia mais uma cobrança do que um simples comentário:

– Prometo que vou dar um jeito de estar, quando você me disser que vem.

Joaquim deteve-se em usar da ironia que compartilhava com Blue, assim como resistiu à tentação de pegar emprestado o sarcasmo que sua prima usava tão bem. Mas sarcasmo não fazia parte do seu temperamento, e além disso não estava a fim de mexer num vespeiro. Vespeiro? Sorriu intimamente. Não! Provavelmente Blue adoraria esta analogia e passaria a apelidar sua tia de Abelha Rainha, por considerá-la autoritária, mas ele tinha um carinho muito grande por ela e se derretia com o seu sorriso doce. Então respondeu:

– Tá bom, tia! A gente combina!
– Cadê a Cristal?
– Está pintando as unhas de Luz! Vou chamar! Manda beijos para os primos e para o tio!
– Beijos, meu bem! – olhou as suas unhas, e concluiu que precisava marcar hora com a manicure.

Safira primava em manter uma imagem impecável. O corte do cabelo permanecia o mesmo havia mais de dez anos, e não o deixava crescer além do que um centímetro, sem acertá-lo. Por trabalhar com confecção tinha muitos contatos nesta área, e uma invejável capacidade em pedir e conseguir o que queria, por isso, marido, filhos e ela mesma, vestiam-se de doações das coleções mais modernas, muitas vezes mesmo antes de serem lançadas.

– Cristal? Tá ocupada? É rapidinho. O Joaquim disse que tava pintando as unhas de Luz…

Cristal sorriu. Sua irmã sabia que que essa palavra era rara em seu vocabulário:

– Não estou, não! Já terminei.
– Estou ligando para agradecer as bolachinhas de canela. Estão deliciosas… Bem… na verdade ainda não experimentei, mas tão com certeza! – e soltou uma risada pelo pequeno deslize.

Safira abominava a mentira. Era assim que a sua Igreja a doutrinara: amor ao próximo, (mas a Deus acima de tudo), e viver sem pecados, sendo que a mentira se configura como um. Cristal admirava o empenho de sua irmã em viver uma vida de louvor às virtudes, mas tinha que se controlar para não criticar sua extrapolada e cega devoção aos pastores e aos dogmas.

Cristal não tinha religião, talvez não tivesse sequer uma filosofia de vida. Vivia cada instante de acordo com o seu coração, e não havia moral que ela tomasse como referência, a não ser aquela que construia por si mesma através da experiência, da observação e do acreditar que em tudo sempre existe um lado bom. Costumava dizer que respeitava todas as religiões, mas se sentia incomodada com discursos radicais e com as normas que estes impunham, pois acreditava que a religião deveria libertar e não aprisionar as pessoas a regras e conceitos. Às vezes se dava conta tentando induzir as pessoas a verem a vida pela sua lente, agindo com exagerada criticidade, chegando a ser chata. Mas amava suas irmãs.

– Devem estar, porque as daqui de casa já acabaram! – e correspondeu à risada – Vou ter que fazer mais!
– Então faz aqueles petit fours de queijo!!!

Desta vez foi Cristal quem riu primeiro:

– Já está na lista de lembretes, na porta da geladeira. Talvez faça ainda hoje.
– A esta hora?
– Amanhã vou sair com Luz para comprar umas tintas e telas. Depois vou acompanhar Joaquim a uma editora que está precisando de tradutor. Tenho que terminar um artigo, colocar uma receita nova no meu blog, e ainda quero visitar Pérola.
– Então amanhã você não vai pra a cozinha?! – Safira fizera as contas, e lhe parecia que não sobravam mais horas no dia da irmã.
– A cozinha? Isso já faz parte da rotina. Eu encaixo nos intervalos. – o tom era descontraído, brincalhão, passeando entre o suspiro e a risada.
– E a Pérola? Como ela está?

Cristal sentiu um certo descaso na pergunta. Como se fosse feita apenas para cumprir uma conduta. Percebeu que, além da entonação linear havia também uma ausência de emoção, uma ausência que ia além daquela que era característica em sua irmã, pois era colocando a emoção de lado que Safira conseguia focar o lado prático da vida, e levar adiante todos os seus planos de sucesso profissional e família bem estruturada. Mas vinha se distanciando cada vez mais de Pérola, e Cristal não conseguia entender nem aceitar isso:

– Como você acha que ela está? Acabou de perder a filha, não é Safira?! Ela já não se conformava de o Joaquim não voltar para São Paulo…
– Mas ele não vai ficar um tempo aqui no Brasil?
– Sim, vai! Mas vai ficar aqui comigo, como quase sempre.

Joaquim muito cedo optara por morar em Portugal, com os bisavós maternos, e por eles fora criado com muito amor, apesar da rigidez. Apaixonado por idiomas, aos dezesseis anos conseguiu seu primeiro trabalho como interprete, e desde então aproveitava os intervalos entre uma viagem e outra pela Europa, para descansar na serenidade das conversas com seus bisavós, ou para matar saudades e tias e primos, no Brasil.

Safira percebeu-se sozinha na sala. Bernardo com certeza terminara a massagem, e se afastara, por antever uma conversa longa ao telefone. Guilherme costumava permanecer ao seu lado, ainda que recluso em sua invisibilidade, esperando receber da mulher alguma atenção que, por um acaso, escapasse distraidamente do tempo já tão preenchido. Mas a poltrona em que havia se sentado, ao seu lado, agora estava vazia.

– Cristal, depois a gente se fala! O Guilherme já foi pro quarto. Foi dar-lhe um pouco de atenção.
– Vai sim! Vai namorar um pouco. Beijos, minha querida!
– Ah, tá! – o tom transitava entre a ironia e o desdém. – Beijos, meu bem!

Olhou a xícara de café frio e desistiu de tomá-lo, balançando a cabeça em gesto de reclamação, segurou a bolsa com uma das mãos e com a outra, o pote de bolachas. Esbarrou o olhar nos sapatos sobre o tapete, e encolheu os ombros, deixando-os onde estavam.


A escuridão do quarto era desfeita pela luz que vinha do corredor e pelos feixes do postes acesos, na rua. A cama estava vazia e intocada. Em frente à janela, a silhueta de um homem imóvel que parecia contemplar o nada. Safira deixou a alça da bolsa escorregar pelo braço, e deslizou a mão até o interruptor. Como que adivinhando o gesto, sem se virar, e num arrastado murmuro, Guilherme pediu:

– Por favor, não acenda… Deixa assim…

Safira ignorou, e desfez a penumbra. Guilherme não reclamou. Nem se mexeu. Ela colocou o pote sobre o criado-mudo, jogou a bolsa numa cadeira, e sentou-se na borda da cama, para despir a meia-calça. Levantou-se, em direção ao banheiro, e só então se deu conta de algo estava diferente:

– Está tudo bem, meu bem? Algum problema com algum dos seus clientes?

Foi no girar do tronco de Guilherme, ainda que seu olhar estivesse voltado para o chão, sem coragem de encará-la, que Safira percebeu as folhas de papel pendendo na mão do marido, como se ele mal tivesse força para segurá-las, mas elas ali permanecessem por uma força de gravidade, da gravidade do que continham. De repente Safira se deu conta de que em seu peito havia um órgão chamado coração, que este oscilava entre o bater acelerado e o quase parar, que este lhe mostrava sensações que iam além do lado prático da vida. As pernas tremiam, e seu mundo seguro e bem estruturado ameaçava desabar:

– O que… o que é isso na sua… mão?

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